Dois novos livros de filósofos redefinem a importância da atividade profissional para nossa formação como seres humanos. E ajudam a responder a uma pergunta que aflige milhões de pessoas
David Cohen e Thiago Cid. Com Nádia Mariano e Rafael Pereira

Pode causar algum espanto, então, que os pensadores modernos encarem a rotina trabalhista de hoje como um problema, uma questão a ser esclarecida, entendida... trabalhada. Isso acontece porque o trabalho adquiriu um significado completamente novo, como mostram dois livros recém-lançados por dois filósofos modernos. Em cada um deles, o trabalho – e seu papel em nossa vida – é totalmente redefinido. Em The pleasures and sorrows of work (Os prazeres e tristezas do trabalho, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), o filósofo suíço-britânico Alain de Botton afirma: “A mais notável característica do trabalho moderno talvez esteja em nossa mente, na amplamente difundida crença de que o trabalho deve nos tornar felizes. Todas as sociedades tiveram o trabalho em seu centro. A nossa é a primeira a sugerir que ele possa ser muito mais que uma punição ou uma pena. A nossa é a primeira a sugerir que deveríamos trabalhar mesmo na ausência de um imperativo financeiro”. Tão ligado está o trabalho à definição de nossa identidade que, quando somos apresentados a uma pessoa, a pergunta mais imediata que fazemos não é de onde ela vem ou quem é sua família, mas o que ela faz. Se o trabalho assumiu essa importância tão central em nossa vida, é natural que não nos contentemos apenas com o que ele nos traz. Nós sempre soubemos que o trabalho é a ação de transformar algo: matéria-prima em objetos, tarefas em serviços. Hoje nos preocupamos também com o que ele faz de nós, como ele nos transforma.
Para Botton, tentar extrair a felicidade do reino do trabalho – e também do amor – é pedir demais. “Não é que essas duas instâncias sejam invariavelmente incapazes de nos dar satisfação, apenas elas quase nunca o fazem”, diz. Seu livro é uma grande reportagem que investiga o significado do trabalho, num mundo que parece ter realizado uma das profecias de Karl Marx: a alienação. “Há dois séculos, nossos antepassados sabiam a história e a origem precisa de praticamente todas as poucas coisas que comiam ou tinham, bem como das pessoas e ferramentas envolvidas em sua produção”, afirma Botton. “Nós estamos hoje mentalmente desconectados da manufatura e distribuição de nossos bens, num processo de alienação que nos tira uma infinidade de chances de nos maravilhar, ser gratos e nos sentir culpados.”
| As causas de infelicidade |
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| Quais são as principais queixas dos trabalhadores, segundo uma pesquisa da consultoria britânica Chiumento | |||||
![]() | 1. O chefe não orienta Líderes têm grande parte da responsabilidade pela felicidade no trabalho. As equipes se ressentem caso não identifiquem coordenação, clareza de objetivos e transparência, principalmente em tempos de crise | ||||
| 2. Salário abaixo do razoável Salário alto pode não trazer felicidade, mas salário baixo tende a deixar o indivíduo frustrado. Além do dinheiro em si, ele sugere falta de valorização do funcionário | |||||
![]() | 3. Pouco desenvolvimento pessoal Ao dedicar grande parte de seu dia ao trabalho, o indivíduo espera em troca que a organização o ajude a evoluir como profissional. A falta de oportunidades de capacitação drena a motivação | ||||
![]() | 4. Chefia fraca O líder não pode se limitar a coordenar os trabalhos do dia a dia. Se ele não identifica talentos e ambições, nem cria um ambiente de apoio mútuo, o resultado será uma equipe insatisfeita | ||||
![]() | 5. Falta de reconhecimento Para realizar tarefas cada vez mais complexas, o trabalhador precisa também de estímulos morais e elogios. Incentivos financeiros, isoladamente, podem parecer uma tentativa de compra | ||||
![]() | 6. Ideias ignoradas Chefes e organizações despreparados para captar, avaliar e usar as informações dos funcionários (sugestões, opiniões e reclamações) correm o risco de perder seus melhores talentos | ||||
![]() | 7. Benefícios insuficientes Organizações tendem a confiar demais na rede de benefícios que cerca o trabalhador (como 13o salário, no caso dos brasileiros) e deixam de identificar demandas específicas, como flexibilidade de horário ou trabalhar em casa | ||||
| 8. Esforço não percebido As empresas sabem que alguns funcionários se esforçam mais que outros, mas frequentemente falham em reconhecer isso. O empenhado tende a ficar infeliz – e acomodado – se não tiver sua dedicação premiada | |||||
![]() | 9. Trabalho desagradável Todo indivíduo pode enfrentar, eventualmente, atividades monótonas ou incômodas – a falta de expectativa de assumir tarefas mais estimulantes, desafiadoras e criativas, porém, mina a boa vontade de qualquer um | ||||
| 10. Ausência de propósito Se o indivíduo não identificar nenhum valor no que faz ou produz – no trabalho que ocupa espaço cada vez maior em sua vida e o ajuda a definir uma identidade –, fatalmente se sentirá angustiado e inútil | |||||







